Existe um tipo de casarão que a gente já abre o livro desconfiando, e Hope’s End é um deles. Em O massacre da família Hope, Riley Sager parte de um crime sem solução ocorrido no Maine, em 1929, e coloca uma cuidadora recém-chegada diante da única sobrevivente: uma senhora que não fala, só digita. Gosto desse tipo de armadilha. Você sabe que alguém está escondendo alguma coisa, só não sabe quem.
Primeiras impressões
A premissa se explica em poucas linhas, e isso já é um ponto a favor. Em 1929, a rica família Hope é assassinada de forma brutal. Só Lenora, a filha mais velha, sobrevive. Quase todo mundo a considera culpada, mas a polícia nunca encontra prova alguma, e ela passa a vida isolada na mansão, sem falar sobre aquela noite.
Décadas depois, Kit McDeere vira cuidadora de Lenora, depois que a enfermeira anterior foge da casa. Aos setenta anos, numa cadeira de rodas e sem fala por causa de uma série de derrames, Lenora só se comunica por uma velha máquina de escrever. Até que, certa noite, ela datilografa uma frase que muda o clima: “eu quero te contar tudo”.
É um começo que prende. Não por ser barulhento, mas porque cada linha digitada nasce sob suspeita. Dá para confiar em quem foi acusada do pior crime da região? Kit também se faz essa pergunta, e o livro usa bem essa dúvida.
Quando ela passa a ajudar Lenora a registrar o que levou ao massacre, a história deixa de ser só um caso antigo e vira um jogo entre duas mulheres. Uma quer contar. A outra quer descobrir se pode acreditar. Sem entregar nada: a cuidadora logo descobre detalhes sobre a fuga da enfermeira anterior que a fazem repensar quem é a senhora sob seus cuidados.
O que faz O massacre da família Hope se destacar
O maior trunfo, na minha opinião, é a atmosfera. A mansão isolada, a cantiga infantil perturbadora que restou como única lembrança do crime e a convivência entre duas mulheres de gerações diferentes criam um clima de casa mal-assombrada sem precisar de fantasma. É suspense psicológico com cheiro de mistério antigo.
Duas mulheres e uma máquina de escrever
A máquina de escrever é um detalhe pequeno que rende muito. Lenora não pode interromper, corrigir ou explicar com a voz, então tudo o que sabemos chega em frases escolhidas. Isso dá ao relato um peso quase de confissão e, ao mesmo tempo, deixa aberta a pergunta mais incômoda: o que ela decidiu não escrever?
O eco de Lizzie Borden
Segundo a CNN Brasil, Riley Sager se inspirou na história real de Lizzie Borden, julgada em 1892 sob suspeita de um massacre dentro da própria casa. Esse pano de fundo ajuda a entender o tipo de dúvida que o livro quer plantar: a suspeita que todos apontam e que ninguém consegue provar.
Reviravoltas e ritmo
Muitos leitores comentam que a trama joga com a dúvida o tempo todo e que a culpa parece trocar de dono a cada trecho. Isso é ótimo para quem gosta de montar teorias no meio da leitura. Por outro lado, há quem sinta que o autor se demora em certos acontecimentos, então o ritmo pode pedir um pouco de paciência.
O próprio autor indicou a obra para fãs de Mike Flanagan, como A Maldição da Residência Hill e A Queda da Casa de Usher. A comparação faz sentido pela proposta: segredos de família dentro de uma casa carregada de passado.
Para quem essa obra é indicada
Quem curte thrillers de mistério com casarão, segredos de família e narradora em quem não dá para confiar tende a se divertir. O massacre da família Hope também funciona para fãs de Mike Flanagan e para quem gosta de histórias inspiradas em crimes reais. E serve bem a quem quer fugir do thriller moderno e mergulhar numa trama com cheiro de época, já que boa parte do mistério gira em torno de 1929.
Por outro lado, quem prefere ritmo acelerado do começo ao fim talvez estranhe os trechos mais lentos. E o título não engana: há um crime brutal no centro da trama, então leitores sensíveis a violência devem ir preparados.
Vale a pena comprar?
Para quem gosta do gênero, sim, com pequenas ressalvas. A edição brasileira é da Intrínseca, tem cerca de 432 páginas e também existe em ebook. Quem prefere ouvir encontra o audiolivro, narrado por Carolina Rocha e Marta Ramalhete, com quase 14 horas de duração. O preço varia, então vale olhar o valor atualizado no dia da compra.
Os pontos fortes são a premissa bem amarrada, a atmosfera pesada e a sensação de que qualquer personagem pode estar mentindo. Os pontos de atenção são o andamento irregular em alguns momentos, segundo leitores, e uma história que cobra atenção aos detalhes. Se você tolera esse ritmo, a recompensa é uma leitura que fica na cabeça depois da última página.
Considerações finais
O massacre da família Hope não reinventa o thriller, mas executa bem uma ideia que nunca cansa: uma casa, um crime antigo e uma única testemunha que talvez minta. Riley Sager transforma a dúvida em motor da história, e é isso que mantém o leitor montando teorias até o fim. Para quem quer uma leitura de suspense sombria, com segredos enterrados e uma narradora difícil de decifrar, o livro cumpre o que promete.
Terminou a leitura e ficou com vontade de mais suspense em casarões cheios de segredos? Eu também fico. Por isso, escrevi sobre outras histórias que mantêm esse clima de mistério e desconfiança: Livro Verity: resenha de um thriller que não solta.
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